terça-feira, 13 de setembro de 2011

Saúde Mental na Província do Niassa: comemorando 15 anos de um serviço de saúde a florescer com a experiência do quotidiano.



Autor: Brígida K. P. Kapella Nhantumbo

I. Introdução:
A Província do Niassa conta com cerca de 146 Unidades Sanitárias, O rácio habitante por Unidade Sanitária é de 7.740, o raio teórico de acção reduziu de 52.6Km, para 51,6. No entanto a dispersão da população continua a desafiar essa taxa. Em geral, que verificou-se um crescimento assinalável no acesso aos cuidados de saúde por parte da população da Província do Niassa apesar da persistência de doenças endémicas como são os casos da Malária, a Tuberculose e o HIV e SIDA (Direcção Provincial de Saúde do Niassa 2010).
A Saúde da População de Niassa nos últimos 4 anos caracterizou-se fundamentalmente pelo aumento de casos de Malária, de disenteria  e de diarreias. O saneamento do meio continua deficiente.
A disponibilidade de latrinas é ainda baixa, uma latrina melhorada esta para cerca de 13 agregados familiares. Cada fonte de água na zona rural está para 103 agregados familiares (Direcção Provincial de Saúde do Niassa 2010)
A situação nutricional da Província registou ligeiras melhorias segundo os Indicadores da Vigilância Nutricional (o Mau Crescimento e Baixo Peso ao Nascer ).O volume de actividades medidas em Unidades de atendimento decresceu, com particular destaque para as Vacinações (6%), consultas externas (8%). Os recursos humanos insuficientes aliados a deficiências no sistema de gestão continuam a ser os maiores desafios para os próximos tempos no funcionamento do sector Saúde na Província do Niassa (Direcção Provincial de Saúde do Niassa 2010).


I.1. Breve Historial
Os serviços de Saúde Mental no Niassa iniciaram as suas actividades em 1996 com 2 técnicos de psiquiatria e saúde mental (1 no Hospital Provincial de Lichinga e outro no Hospital rural de Cuamba), as 2 Unidades Sanitárias de referência na província. Antigamente, os casos de doenças mentais eram tratados nas consultas de medicina geral ou eram transferidos para o Hospital Psiquiátrico de Nampula.
Cerca de 2 anos depois, a província recebeu 3 novos técnicos de psiquiatria e saúde mental, o que permitiu expandir as actividades. Assim, os distritos de Mandimba, Mecanhelas e Marrupa passaram a contar com estes serviços. Integrados nos serviços de medicina geral, os técnicos para além de prestar serviços nas consultas externas, trabalham em coordenação com os outros programas da saúde da comunidade.
Em 2005, o programa passou a contar com uma psicóloga clínica e em 2006, iniciou com os serviços de psicologia no Hospital Provincial de Lichinga (HPL). Para além das consultas e avaliações psicológicas, introduziu-se nos finais de 2006, os serviços de psicoterapias sócioemocionais externas, que numa primeira fase tinham como grupo alvo, apenas os doentes internados no HPL. Em 2007, começaram a abranger pacientes em ambulatório e pacientes transferidos dos Serviços Amigos de Adolescentes e Jovens (SAAJ).
As terapias sócioemocionais externas, são terapias de grupo feitas fora do ambiente hospitalar cujo objectivo fundamental é para além o apoio emocional e manutenção da auto-estima dos pacientes com base em dinâmicas, colocar os pacientes em contacto com outras realidades sociais diferentes do ambiente de hospital, eliminar os sintomas depressivos e desenvolver a vontade de cura rápida para voltar ao convívio social que vão apreciando.
A maioria das pessoas vive numa permanente busca de um ajustamento saudável em suas relações pessoais, familiares, sociais e profissionais. No ambiente hospitalar, apesar das diversidades das histórias individuais que culminam com a decisão médica de internamento para a sua recuperação ou melhor seguimento, existe em comum a busca frequente da recuperação, processo que para ser bem-sucedido, exige autoconhecimento, uso maduro de emoções ou motivação, capacidade de lidar com os próprios conflitos e atendimento humanizado para além da medicação prescrita e administrada diariamente (Gaudêncio 2011).
A depressão é vista por Winnicott (1999) como uma componente da psicopatologia manifestando-se de forma severa e incapacitante, e durar a vida inteira. Nos indivíduos relativamente saudáveis, geralmente é um estado de humor passageiro. É assim vista como em fenómeno comum e até certo ponto universal, que se relaciona com o luto, com a capacidade de sentir culpa e com o processo de maturação. É um processo fenomenal que implica uma força do ego, tende a sumir e a pessoa deprimida tende a se recuperar para a saúde mental (Winniccot 1999).
Em 2007, foi assinado um memorando de entendimento entre a Direcção Provincial de Saúde do Niassa, o Conselho Municipal da Cidade de Lichinga e o Instituto Nacional de Segurança Social (INAS), com o objectivo de fazer o seguimento e ajudar na devolução dos pacientes as suas residências ou ambiente familiar, evitando deste modo a presença de doentes nas artérias das cidades, vilas e mercados da Província, como consequência de recaídas e/ou falta de suporte psicossocial.
Em 2009, a província recebe mais 2 técnicas psiquiatria e saúde mental, o que permitiu expandir os serviços para o distrito de Maúa, a sul do Niassa. Em 2010, os serviços iniciaram no distrito do Lago. Devido a insuficiência de recursos humanos da área, os restantes distritos da província são cobertos pelos técnicos existentes, que de forma rotativa, de 3 em 3 meses, visitam estes locais e fazem as consultas e/ou seguimento.


II. Actividades desenvolvidas

Toda e qualquer intervenção deve ter em conta o cuidador e o cuidado, de modo a respeitar as suas convicções e introduzir mudanças de forma gradual, sem criticar nem menospresar nada nem ninguém. No caso de intervenções nas comunidades e ao nível hospitalar, é importante traçar estratégias que tenham como princípio que nenhuma cultura é melhor que outra, existem apenas diversidades que devem ser respeitadas e não censuradas (Said and Figueroa 2008). Os trabalhos dos profissionais de saúde mental no Niassa, não foge a esta regra, daí a pertinência de rever estes conceitos.
O cuidado: significa atenção, precaução, cautela, dedicação, carinho, encargo e responsabilidade. Cuidar de alguém é servir, é oferecer ao outro, em forma de serviço, o resultado de seus talentos, preparos e escolhas, é praticar o cuidado. Cuidar de alguém é perceber a outra pessoa tal como ele é (perceber suas limitações, gestos, concepções, dor, alegria, conhecimentos, criatividade, ideias, em fim, perceber os hábitos, as vivências, as particularidades e intimidades, etc) (Fonseca and Da silveira 2008).
O autocuidado: significa cuidar de si próprio, são atitudes, comportamentos que a pessoa tem em seu próprio beneficio, com o objectivo de promover a sua própria saúde, preserva-la, manter a vida independentemente de qualquer tipo de obstáculo que tenha na frente por vencer (Said and Figueroa 2008).
O cuidador: é um ser humano com qualidades especiais, transmitidas pelo forte traço de amor à humanidade, de solidariedade e de doação (Said and Figueroa 2008). Em seguida, algumas tarefas que fazem parte da rotina diária de um cuidador:
ü  Actuar como ele de ligação entre a pessoa cuidada, a família e a equipa de saúde,
ü  Escutar, estar atento e ser solidário com a pessoa cuidada,
ü  Aconselhar e dar apoio sócioemocional sempre que necessário,
ü  Ajudar nos cuidados de higiene sempre que necessário,
ü  Estimular e ajudar na alimentação,
ü  Ajudar na locomoção e actividades físicas tais como: andar, tomar sol e efectuar exercícios físicos,
ü  Estimular actividades de lazer e ocupacionais,
ü  Administrar as medicações, conforme a prescrição e orientação médica
ü  Dar informação suficiente sobre os cuidados que o doente precisa ter consigo mesmo,
ü  Dar informações sobre os comportamentos de risco que o doente deve evitar,

As actividades de saúde mental, requerem não apenas os aspectos acima descritos, como também uma enorme vontade de ensinar e aprender. Nos primeiros anos, o programa teve muitas dificuldades pois muita gente pensava que este serviço é destinado apenas aos doentes mentais, vulgarmente apelidados de “malucos”, termo que foi gradualmente eliminado, principalmente no ambiente familiar dos doentes, como resultado das campanhas de IEC associadas as visitas domiciliárias feitas pelos técnicos.

No entanto, as campanhas de IEC também tiveram algumas dificuldades, principalmente no que diz respeito as terminologias das patologias mas frequentes como por exemplo a Epilepsia, que em cada região do Niassa, tem a sua designação e estratégia de tratamento. Os profissionais tiverem que fazer um trabalho junto dos membros influentes, para aprender estes termos, de modo a facilitar a comunicação com a comunidade.

De um modo geral, nos últimos 4 anos os casos novos de transtornos Neurológicos, mentais e comportamentais, aumentaram em resposta as campanhas de Informação, Educação e Comunicação em Saúde Mental realizadas nas comunidades, Escolas e nos trabalhadores de Saúde que permitiu o aumento de conhecimentos em relação as doenças  mentais que se tratam nas Unidades Sanitárias.

A figura 1, apresenta o dados das inspecções sanitárias desenvolvidas nas escolas em coordenação com o programa de saúde escolar e do adolescente. Importa sublinhar que o trabalho feito nas escolas influi igualmente palestras com alunos, professores, pais e encarregados de educação. Esta actividade, deve um papel importante na descoberta de crianças que eram impedidas e ir a escola e ter uma vida normal por serem epilépticas.




Figura 1: Dados do trabalho de inspecções sanitárias nas escolas no período 2006-2009

Fonte: DPS/Niassa_2009

Na tabela 1, estão representados os indicadores de serviços de Saúde mental nos últimos 5 anos. A redução das primeiras consultas e seguintes, deveu-se também a melhor assistência dos doentes no tratamento e na toma da medicação, uma vez que estes pacientes devem ser medicados e monitorizados. No caso dos doentes crónicos, são feitas visitas domiciliarias uma vez por mês, nos distritos onde há técnico de psiquiatria e saúde mental permanente e de 3 em 3 meses, nos outros distritos.

Tabela 1: Indicadores de serviços de Saúde Mental
Indicadores
2005
2006
2007
2008
2009
Cresc
Casos novos de transtornos Neurológicos, mentais e comportamentais

2.731

3.053

3.399

2.003

2.835

41.5%
Disponibilidades de serviço de Psiquiatria nos Hospitais Provinciais ( camas, Serviços).

12

12

12

12

12

0
Nº de triadores da US de nível primário em S.Mental

0

3

3

13

13

0
Fonte: DPS/Niassa_2009[1]

Os distritos com alta cobertura de consultas foram. Cuamba e Lichinga Cidade, devido a disponibilidade de medicamentos. Contudo, a dificuldade de transporte para a deslocação dos técnicos as comunidades, associados a outros factores de ordem administrativa, contribuíram para as baixas coberturas nas consultas registadas nos distritos de Mecanhelas, Mandimba e Marrupa (Direcção Provincial de Saúde do Niassa 2009)

Na área de psicologia, as consultas são feitas no Hospital Provincial de Lichinga todas as manhãs de segunda a sexta feira, avaliações (sempre que necessário ou quando estas são solicitadas pelos outros sectores ou outras instituições). Nos sábados de manha, são feitas as psicoterapias socioemocionas externas. Neste serviços, são atendidos doentes de todas as idades, apesar de os domingos, estarem reservados a actividades específicas na pediatria do HPL.

No serviço de Psicologia, foram atendidos num total de 3.502 pacientes ( 2009) e 2.708 pacientes em( 2.008 ) com uma evolução de 11,7%.  Nas primeiras consultas, foram vistos 178 pacientes em 2009 contra os 162 de 2008, o que representa um aumento na ordem de 10% na procura destes serviços pelos utentes, conforme se pode observar na tabela 2.

A faixa etária dos 10 aos 20 anos, é a que mais procura estes serviços. Até ao momento, no HPL não  existem espaços específicos para as Terapias Ocupacionais.

Tabela 2: Movimento das 1ªs consultas de psicologia 2008-2009
F.Etária
1ªs Consul/08
1º Consultas/09
Evol.1ºs Consultas (08/09)
0-10
41
36
0.12
10_20
79
76
0.04
20-30
24
34
0.42
>30
18
32
0.78
Total
162
178
0.10
Fonte: DPS/Niassa_2009

III. Conclusão:
Nos últimos 5 anos, os serviços de Saúde mental no Niassa, registaram inúmeros avanços a todos os níveis com particular destaque para expansão das áreas de cobertura e o trabalho nas comunidades (Informação, Educação e Comunicação(IEC), visitas domiciliárias e trabalhos com as autoridades tradicionais locais, incluindo os curandeiros/praticantes de medicina tradicional). Contudo, ainda há muito por aprender e por fazer, começando pelo aumento e capacitação dos recursos humanos da área.



Referências bibliográficas
  1. Direcção Provincial de Saúde do Niassa (2009). Relatório anual de prestação de contas 2008. Lichinga.
  2. Direcção Provincial de Saúde do Niassa (2010). Relatório Anual de Prestação de contas 2009. Lichinga.
  3. Fonseca, A. C. and E. R. Da silveira (2008). Guia prático do cuidador. Brasília, Ministério da Saúde Brasileiro.
  4. Gaudêncio, P. (2011). "Terapia Clínica." from http://www.paulogaudencio.com.br/top-terapia3.html.
  5. Said, R. and M. E. Figueroa (2008). Relacionamentos múltiplos e concorrentes: diálogos ausentes em contexto de risco para o HIV. Maputo, Johns Hopkins University/bloomberg School of public health/center for communication programs.
  6. Winniccot, D. W. (1999). Tudo começa em casa. Trad. de Paulo Sandler. São Paulo, Martins fontes.
           
Fonte oral:
Jacinto Ncuna, responsável provincial de saúde mental no Niassa.



[1] Incluem dados das consultas de Psicologia

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe o seu comentario